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Para ler o Zaratustra de Nietzsche - Série Filosofia em pílulas

Código: 5154
José Nicolao Julião
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Prefácio

Nicolao na Terra da misteriosa Emília


Há os filósofos que nos servem quando precisamos de justiça social e há os que os incentivam quando queremos nos recriar. O filósofo americano Richard Rorty adotou essa visão a respeito dos filósofos e, com ela, se dispôs a mostrar que enquanto Marx, Stuart Mill, Dewey e Habermas estavam no primeiro time, Heidegger e certamente Nietzsche pertenciam ao segundo. O próprio Rorty pensou em fazer as duas coisas, mas sempre desacreditando completamente da ideia de Platão de que poderia uni-las em uma só visão – uma metafísica ou, como diria Gramsci, uma concepção de mundo. Assim, se descartamos o uso de Nietzsche para a política e o tomarmos como alguém que buscou a redescrição de nós mesmos em um sentido da autocriação, o caminho para sua filosofia se abre de um modo interessante. Essa abertura deve desembocar, cedo ou tarde, no encontro com a curiosa figura chamada Zaratustra.
Zaratustra não é Nietzsche. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, por conta de seus autoelogios, o filósofo nunca se colocou em uma posição além da de cada um de seu tempo. Quem diz isso dos bons filósofos, que eles fazem propaganda de si mesmos e se acham superiores, se esquece de notar que os filósofos, como Nietzsche disse, são falantes, e que mesmo quando lhes passa pela cabeça que deveriam optar pelo quietismo, ainda assim insistem em contar isso para outros e, portanto, continuam falando. Nietzsche percebeu que a filosofia deveria levá-lo ao silêncio. Mas, diferentemente de Adorno, que preferiu denunciar esse impasse por meio de uma dialética que põe no banco dos réus seu próprio pensamento e o de seus colegas, e ao contrário de Wittgenstein, que advoga a ideia do silêncio da filosofia nos lugares em que ela não pode mais falar, Nietzsche confessou várias vezes que não podia parar de falar. Nesse impasse entre saber que deveria ficar quieto e sua necessidade de falar, Nietzsche encontrou aquele que poderia falar o que ainda deveria ser falado: Zaratustra.
Falado? Não! Talvez, apenas anunciado por um urro ou balbuciado em forma de uma poesia esquisita.
Como a Emília de Monteiro Lobato, Zaratustra ganhou uma pílula da fala e passou a anunciar por si mesmo a boa nova: o homem deve causar para o Übermensch algo parecido com a vergonha que o homem sente diante do macaco. Diante da Emília, não foram poucos os que disseram: só fala bobagem. Mas, as crianças entenderam Emília e a consagraram. Talvez só as crianças sejam parecidas com Zeus, o deus que chora e ri e que brinca tanto quanto o logos de Heráclito, e talvez só elas possam mesmo deglutir a fala de Zaratustra. Pois ele anuncia aquilo que não podemos entender, uma vez que se trata de algo nunca antes existente ou imaginável. Algo há de vir, e que não faz mais o que o homem faz. A constante atividade de valoração perderá seu valor até porque a palavra valor deixará de contar alguma coisa. As valorações serão desnecessárias na dimensão da morada do Übermensch. E nada mais haverá de próximo ao que foram as descrições que Nietzsche utilizou por meio da tipologia fraco-forte, doente-sadio, escravo-senhor, feminino-masculino, ovelha-ave de ra¬pina, etc. No mundo das crianças, há só o lúdico sem finalidade, o jogo de brincadeira, não o desporto. É necessária certa infantilidade para conviver com Emília e com Zaratustra.
Nietzsche optou claramente pela formulação poética e pela paródia aos Evangelhos, dando a pílula da fala para Zaratustra. Não poderia ser diferente. Caso fosse diferente, mais tarde, Nietzsche teria sido condenado pela filosofia, que o acusaria de ter continuado a fala no lugar de sua Emília. Nietzsche efetivamente calou-se. Não precisava mais falar. Não podia mais falar. Zaratustra destrambelhou a falar. E como falou! Falou, como Emília, um monte de coisas que eram tão esquisitas quanto é esquisito e sacrílego parodiar o Evangelho!
Os caminhos para saber como escutar Zaratustra foram postos nas páginas seguintes pelo filósofo brasileiro José Nicolao Julião. Leiam o que os ouvidos não ouviram, o que os olhos não viram e o que não está escrito! O livro do professor Nicolao tem este mistério, de contar coisas que não podem ser contadas e que, talvez, não estejam mesmo contadas.

Paulo Ghiraldelli Jr., Ibitinga, 2 de outubro de 2011

Sobre o autor:
José Nicolao Julião possui graduação (1987) e mestrado (1994) em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado (2001) em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Fez estágios nas universidades de Leipzig e Bielefeld, na Alemanha, em nível de doutorado sanduíche como bolsista do Daad e da Capes. Atualmente é professor associado II da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia. Participou dos programas de pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Goiás (2001) e da Universidade Gama Filho – RJ (2006-2010). É autor de vários artigos e do livro Três interpretações de Nietzsche. Integra o programa de pós-graduação em História da UFRRJ.



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