Em Freud e o cérebro: a ciência da mente e da cura psíquica, Mark Solms — neurocientista, clínico e psicanalista — convida o leitor a reencontrar Sigmund Freud para além do clichê cultural do divã e das frases feitas. Aqui, Freud não é retratado como caricatura nem como santo: ele ressurge como um cientista ambicioso, comprometido com evidências, cuja intuição sobre a mente começa a reaparecer, de modo surpreendente, nas descobertas da neurociência contemporânea.Ao longo de uma trajetória rara — que abrange desde a autoria de mais de 300 publicações científicas até a prática clínica e a formação psicanalítica —, Solms sustenta uma tese provocadora: a psicanálise e as psicoterapias que dela derivam não são relíquias do século XX, mas ferramentas contemporâneas e, em muitos casos, as mais eficazes que temos para compreender e tratar o sofrimento psíquico. Em vez de prometer soluções fáceis, o autor é enfático: este não é um livro de autoajuda. É um mapa da mente, construído para quem busca entender por que sofremos, por que repetimos padrões, por que sonhamos, e por que a “cura pela fala” pode alcançar a raiz do problema, onde medicamentos, muitas vezes, apenas aliviam sintomas.O percurso começa no “sintoma” — aquilo que se manifesta e pede explicação — e avança para os “censores” — as forças internas que filtram, reprimem e distorcem o que sentimos e lembramos. A partir daí, o leitor entra em temas centrais da tradição freudiana, sempre repensados à luz da ciência atual: a interpretação dos sonhos, o desenho do aparelho mental, a lógica da cura pela fala, os deslizes da língua que traem desejos e conflitos, e os mecanismos de defesa que nos protegem, mas também nos aprisionam. Mais adiante, Solms discute o papel das crenças e ilusões na vida psíquica, ampliando a conversa para uma dimensão decisiva: a possibilidade de transformação emocional profunda, mediada pela análise, pelo vínculo, pela relação e pelo amor. No epílogo, a investigação retorna ao ponto decisivo: distinguir o que apenas aparece (o sintoma) daquilo que origina (a causa).Ao fim da leitura, o benefício é duplo: de um lado, um entendimento mais nítido e humano do funcionamento da mente: na saúde e na doença, no sono e na vigília, na vida pública e na privacidade do que não é visto. De outro, uma mudança de perspectiva sobre o próprio cuidado em saúde mental: por que falar pode curar, por que mudanças duradouras levam tempo e por que, apesar de todas as polêmicas, Freud talvez seja hoje mais necessário do que nunca.+ Ver mais